(continuação)
A Vida não me oferecerá outra oportunidade como tu, seguramente, Maria do Céu. É sempre assim! Pobres e ingénuos tolos, deixamos escorrer, por entre os dedos, a água demandada pela nossa sede de humanidade. Quando nos surpreendemos bem no meio do deserto duma vida oca e sem sentido, e uma simples gota nos chegaria, Maria do Céu, olhamos as mãos e nelas não encontramos senão os resíduos secos do que nela aos poucos fomos dissolvendo.
Uma promessa te faço. Quando uma criança qualquer, como tu, pousar em mim os seus olhos de pardalito assustado e com o seu quê de acusadores, e me interrogar, mudamente
- Que fazes do meu mundo?...
não representarei, nunca, o ridículo papel da nudez real vestida de invisível manto. Tentarei pegar com humildade na minha razão, por suposto esclarecida, no calor do meu sentimento, por suposto amante e preocupado, na minha vontade, por suposto decisiva, e com tudo isso construir uma acção eficazmente solidária, um comportamento que não descure os pequenos gestos amenizadores da infelicidade, uma acção lavada, limpa, grande, onde "o outro" seja o princípio e o fim, o alfa e o ómega, o lugar geométrico de todas as minhas preocupações.
(continua)
Magalhães Pinto
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