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1.4.07

A DUVIDA - 24º. fasciculo

(continuação)

Era visível, Maria do Céu, que mesmo ali, comigo, depois de algumas horas de companhia, continuavas a sentir-te só. Como eu te entendia bem! De há dez anos para cá, a solidão era também a minha companhia permanente. Tanto, que já me habituara à sua presença. Se calhar, como tu. Do hábito me ficara tratá-la como um peluche: viver com ela, deitar-me com ela, adormecer com ela, tê-la ainda entre os braços ao acordar e quase não reparar nela conscientemente. Quantas vezes me achei a conversar com ela, num diálogo com bilhete de ida, exclusivamente. Eu também sabia, Maria do Céu, o que era jogar as palavras, os pensamentos, as iras e os queixumes, num pinguepongue com as paredes. O que era lançar um impropério para o receber, cinicamente, reflectido no eco da nossa consciência. Nunca cheguei a saber se contigo se passava o mesmo, Maria do Céu, mas ocasiões houve em que estendi as mãos para acariciar a minha solidão, como se fosse uma doce companhia de quem esperava retribuição, e não encontrei senão o vácuo da minha sombra. Quantas vezes, me pretendi usar a faca com que cortava o pão das minhas refeições solitárias, para a esventrar, para lhe pôr as vísceras à mostra, deixando-as escorrer, como lodo, para as margens do meu rio. E o meu gesto de angústia não encontrou senão um vazio pastoso, moldável, multiforme, a ajustar-se continuamente à lâmina com que pretendia destruí-lo. Como eu te entendia bem, Maria do Céu! Era como se fosses, nesse instante, um espelho de feira a escarnecer piedosamente de mim!

(continua)

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