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2.4.07

A DUVIDA - 25º. fasciculo

(continuação)

De súbito levantou-se, ligeira, e foi apreciar de perto uma reprodução do "Guernica", pendente sobre a secretária. Passeou o dedo indicador direito por sobre as figuras sem relevo, como se procurasse um sinal qualquer de que a vida se não esvaíra dali. Quadro esquisito, todo pintado a preto e branco!... A tragédia dum momento suspensa na eternidade, disse eu, não podia ser pintada noutras cores. Qual tragédia!... A tragédia só é negra nas letras dos jornais e no traje das viúvas, de resto, veste-se de todas as cores!... O pintor devia era ser muito pobre e nem dinheiro teria para comprar lápis de outras cores!... Na escola, pintei uma vez o largo lá da aldeia com uns lápis emprestados pela professora e ficou muito mais bonito!... E coitadinho do menino!... Ainda é parecido com o touro, vaca ou lá que é!... Esta mania, dos artistas modernos, de desenharem umas coisas como se fossem outras!... Eu olhava-a em silêncio, sobressaltado pela surpresa das palavras em catadupa. Não, concluiu. Morto pelo estoque, na arena, ou por uma bomba atómica, no campo, um touro seria sempre um par de cornos afiados, duas narinas, a resfolegar se estava bravo, ou a palpitar se tranquilo, quatro patas curtas e um sexo enorme, como o do 'Surdina", que ela vira, em todo o seu tamanho, quando, há muitos anos, fora com o pai levar a "Malhada" à cobertura.

Pedi-lhe para me dizer, sabida que era, como imaginava a sua terra se, de repente, o céu se abrisse sobre ela num chuveiro de ferro e fogo. Olhou pensativamente a reprodução, foi lentamente encostar-se na ombreira da janela, pareceu abandonar o pensamento à tranquilidade do rio, e deixou escapar um murmúrio. Não entendi bem. Teriam morrido todos os touros ou algo de semelhante.

(continua)

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