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4.4.07

A DÚVIDA - 26º. fascículo

(continuação)

Quedou-se, imóvel, por largo tempo. Não ousei interromper. O gira-discos silenciara e fui repô-lo em movimento, sem lhe alterar o volume. Aproximei-me dela, passei os braços à altura do seu peito, apertei-a ternamente contra mim. E depositei um beijo na rósea confluência do pescoço com o ombro. Senti-a rígida, bloco novamente. Num beijo único, percorri-lhe o pescoço, de lado a lado, demorando um pouco mais na nuca. Fui-a arrastando lentamente para o sofá, enquanto desabotoava, um a um, os botões de madrepérola da blusa.


Não sei bem como foi, Maria do Céu. Habitualmente, a roupa vestida comporta-se como o maior adversário do romantismo de um acto de amor, espécie de sublinhado duma desobediência ancestral, intervalo entre um suave prelúdio e um grande final, durante o qual dois amantes se vêem forçados a descer dos etéreos espaços dos sentimentos e dos sentidos exacerbados, às comezinhas e reais complicações dos colchetes e fivelas, dos ligueiros e fechos de correr, olhos cravados no chão, envergonhados da culpa própria no paraíso perdido. Mas estava tão concentrado no objectivo supremo de te conduzir à vida, Maria do Céu, que nem me lembro como nos desenvencilhei das roupas, nem me recordo que tenhas dado por isso.

Depois, foi um longo monólogo. Nunca um fastídio. Não sei por quanto tempo o meu corpo, despido de preconceitos e fremente de desejos, todo ele concentrado no afã de desfiar, cuidadosamente, para que se não rompessem, os fios do casulo do seu refúgio, se atardou. Fazendo de cada anseio um gesto, de cada gesto uma promessa, de cada promessa um acto, acariciou longamente o seu. Quando, por fim, a surpresa de duas lágrimas, depositadas ao canto dos olhos cerrados de Maria do Céu, atingiu com fragor a minha consciência semi-adormecida, senti repicar em mim uma sinfonia de alegria, tocada pelo campanário da maior catedral do mundo, sinfonia que me conduziu, que nos conduziu, num crescendo imparável, até à explosão dos nossos seres, corpos e almas, numa via láctea de milhões de estrelas.

(continua)

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