(continuação)
XVII
Naquela viagem de regresso ao Porto, éramos dois desajeitados, Maria do Céu. Quase não falavas, não obstante sorrisses, um pouco tristemente, de cada vez que eu tentava fazer piada e desfazer as nuvens de borrasca, acumuladas na véspera. Por mais duma vez - não sei se o notaste - fiquei a observar-te de soslaio, enquanto parecias encontrar no relevo, a desfilar lá em baixo, não sei que contos de menina a prenderem-te a atenção. Uma das vezes, vi os teus olhos marejados de água. Não cairam as lágrimas. Ficaram prisioneiras desses teus olhos lindos. Desejei tanto, nesse instante, vê-las rolar nas tuas faces! Talvez lavassem os remorsos que intimamente me assolapavam! Desisti de conversar contigo. As feridas curam-se melhor quanto menos nelas se mexe, pensava eu, mais por desculpa que convencimento. Pousei suavemente a minha mão na tua. Estava gelada. Era como se tivesses voltado a ser a mulher distante e fria pousada na penumbra do Borboleta Negra. Apertei-ta ligeiramente, intentando dizer-te, no gesto simples, que eu estava ali, a segurar-te, a estabelecer um elo entre os polos desertos da indiferença, nos quais já viveras e para os quais me parecia retornares, e os trópicos esfusiantes de vida, para os quais eu queria arrastar-te. Maldisse então este meu feitio, possessivo, ciumento, tantas vezes violento, sei lá, paternal, a transformar-me a doçura numa obscena orgia de agressões morais e físicas, que eu não conseguia dominar.
O Porto recebeu-nos húmido e sem sol, triste, como é seu hábito. Fomos directos ao meu pequeno apartamento da Ribeira. Telefonei para o director do jornal, a informar do meu regresso, dizendo que só iria à redacção daí a dois ou três dias, pois pretendia escrever a crónica imediatamente, longe do bulício do jornal.
(continua)
Magalhães Pinto
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