
Paul Newman, o ex-actor de cinema que quase todos admirávamos, estrela de grandes filmes de qualidade como “O Prémio”, “Gata em Telhado de Zinco Quente” e “A Torre do Inferno”, doou, há alguns dias, a quantoa de dez milhões de dólares ao Kenyon College, escola na qual se formou há mais de meio século. Uma atitude mais num homem a quem o estrelato não estragou. Conheça-se que ele é o proprietário de uma linha de produtos alimentícios, o “Newman’s Own”, cujos lucros são totalmente entregues a instituições de caridade. Na circunstância da doação referida, produziu a seguinte afirmação:
“Devemos fazer o preciso para que os estudantes mais carenciados possam ter acesso ao ensino superior.”.
Não pude deixar de colocar em confronto esta medida de um simples indivíduo, naturalmente rico mas extremamente generoso, e o anúncio, pelo nosso Primeiro Ministro, no último debate na Assembleia da República, da oferta (ou quase) de computadores e acessos de banda larga à Internet a cerca de meio milhão de jovens portugueses. Um anúncio que impressiona, sobretudo pela sua dimensão. Claro que, cerca de uma semana depois, José Sócrates reduziu aquele número para duzentos e cinquenta mil. Não se pode dizer que foi muito. O número era tão grande qu, mesmo um corte de cinquenta por cento, ainda deixa muitos computadores para oferecer (ou quase). O que pode questionar-se é se esta é a melhor maneira de conduzir os jovens a uma formação eficiente, que faça deles cidadãos responsáveis e produtivos quando atingirem o estado adulto. Tenho dúvidas que esta seja a melhor maneira. E a medida afigura-se-me demasiado “simplex”.
Não coloco em dúvida quanto, na dita sociedade do conhecimento, é importante ter acesso à informação. Costumo mesmo dizer que uma das alterações mais profundas verificadas nos últimos cinquenta anos tem a ver com o seguinte:
- O sucesso indicidual está, natural e intimamente ligado ao domínio da informação; tive oportunidade de, no meu livro “Belmiro – História de uma Vida”, colocar em evidência quanto o sucesso da SONAE esteve ligado a esse factor;
- Antigamente, o domínio da informação estava ao alcance de apenas meia dúzia de privilegiados pelo seu estatuto social e correspondente acesso às fontes;
- A Internet veio revolucionar este estado de coisas, na medida em que, a partir da sua generalização, a informação passou a ser de todos para todos, isto é, todos produzem toda a informação e todos têm acesso a ela;
- Naturalmente, a dimensão da informação existente na Internet tem dimensões hoje já astronómicas, impossíveis de ser totalmente acedida por qualquer um;
- Donde, o sucesso hoje estar ligado à capacidade de seleccionar a informação a que se acede.
Tido este silogismo, mais ou menos extenso, em conta, o treino assumirá, naturalmente, um papel fulcral. E, nessa medida, a disponibilização dos computadores anunciada tenderia a ser uma boa medida. Nem sequer vou discutir, aqui, se esse é o melhor modo de aplicar os parcos recursos disponíveis, para atingir o objectivo maior de todos, aquele que Paul Newman tão simplesmente exprimiu ao fazer a sua doação. As minhas dúvidas são de outra natureza. Isto é, oferecer os computadores e o correspondente acesso aos jovens, sem lhe dar uma prévia formação de responsabilidade e de modo de usar o que ao seu alcance é colocado, pode ser uma rematada asneira, de efeitos perversos.
...
Como fonte de informação e conhecimento, a Internet é uma fonte inesgotável. Se os jovens a utilizarem do mesmo modo com que, há tempos atrás, se fazia com os livros, isto é, se a Internet for apenas mais um meio – e o mais importante e vasto – de obtenção de conhecimentos que são comparados, esmiuçados, submetidos à apreciação crítica de quem a eles tem acesso, estamos no paraíso. Porém, começam a ser muitos os casos em que a Internet é apenas uma fonte simplificada, preguiçosa, de arranjar qualquer coisa que se possa depois colocar no papel para mostrar aos professores. Para dizer as coisas em termos simples, a Internet é, hoje, a maior fonte de plágio puro e duro que se conhece. E isso é terrivelmente negativo.
Recordo que, nos livros escolares do tempo da ditadura, havia nos textos um, salvo erro intitulado “O Cuco”, no qual, de modo fabular, se explicava às crianças o feio que era assumir a atitude do cuco, ou seja, pôr os seus ovos nos ninhos laboriosamente construídos pelas outras aves. Era um libelo contra a preguiça. Infelizmente, esse texto desapareceu, como tantos outros de profunda missão formadora de caracteres. E corremos o risco de, mais uma vez, estarmos a incentivar a preguiça, desta vez intelectual, formando cada vez mais ignorantes que sabedores.
Num quadro como o que analiso aqui, estou mais virado para classificar a medida anunciada pelo Senhor Primeiro Ministro, assim, sem mais nada, sem um programa de formação e uso prévio, sem mesmo limitação de acesso ao que, sendo lúdico, e mau formador, como a pornografia, possa ser apenas uma medida “simplex”, popularuncha e populista, demagógica, sem grandes efeitos outros que não sejam aumentar a frequência das salas de chat cibernéticas à custa dos nossos escassos recursos.
Oxalá eu esteja enganado.
Excertos da crónica SIMPLEX - Magalhães Pinto . "Vida Económica" - 6/6/2007
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