(continuação)
Sacudi a cabeça com vigor. Tudo sem sentido. Não queria embrulhar-me na batalha dialéctica entre o homem-material e o homem-moral. Estava-me nas tintas sobre quem seria o vencedor. Por mais que sentisse a necessidade desse conhecimento. Por mais que acreditasse só transcenderem os homens, verdadeiramente, essa limitação, essa negação do seu próprio conceito, que é a morte, ao encontrar um sentido para a sua vida. Por mais que pensasse serem os homens apenas nados-mortos sem esse sentido, sem esse norte, sem essa libertação das peias da sua vida natural. Capazes do óptimo e do péssimo, do sublime e do execrável, embora, no milímetro de eternidade entre o nascer e o morrer, sem esse sentido, o homem apenas é meio caminho entre Caim e Abel, David e Golias, Augusto e Calígula, Agripina e Maria, Francisco de Assis e Inácio de Loyola, Pasteur e Hitler, eu e Maria do Céu.
À medida que o tempo se escoava, sem regressares, Maria do Céu, uma irritação desesperada crescia em mim. Impensadamente, punha em confronto o meu regresso tão logo quanto possível, para estar junto de ti, e a tua longa saída. Mandei às malvas o facto de te ter falado do meu regresso cerca das seis. Ficava em expoente, como se fosse um anúncio de neon daqueles da Pigalle, a tua ingratidão face à minha dedicação. Hoje, tendo em conta os acontecimentos e as revelações subsequentes, não sei se estava certo nessa atitude. Perante mim, eu era o bom e tu eras a má. Presunçoso, creio. Complexo como os demais homens. Capaz dum ideia límpida e libertadora, brilhante como um farol no meio do meu labirinto de interesses egoistas. Turbilhão caótico de paixões primárias e destruidoras logo feito um suave e tranquilo mar de humanidade. Eu não era, não sou, Maria do Céu, diferente de todos os outros homens...
(continua)
Magalhães Pinto
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