(continuação)
Olhei o relógio. Quase seis horas. Estava intimamente gelado. A meditação induzida por aquela criança tinha, paulatinamente, transformado a minha irritação num sentimento cortante e impiedoso de censura. Onde quer que tivesse ido, Maria do Céu ousara uma iniciativa sem o meu beneplácito.
Chegaste apressada, esbaforida, quase assustada, diria. Nem reparaste em mim, quieto, a observar-te. Gozei intimamente, quando te vi dirigires-te para as escadas, sem me veres. Dei tempo a que chegasses ao quarto. O episódio do cinema, lá no Porto, agigantava-se no meu espírito. Queria, desta vez, apanhar-te totalmente desprevenida, serena já, ou sem desculpa ou com desculpa engendrada. Não sei bem porque decidi agir assim, Maria do Céu. Amava-te e não devia ter, aparentemente, razões para duvidar de ti. Mas todo o meu comportamento se processava na presunção de que me ias mentir. Hoje, penso que se tratava de instinto, primário, quase animal. Aguçado, provavelmente, por nunca ter conseguido esquecer o Borboleta Negra, a noite do nosso encontro e o ter comprado os teus primeiros favores sexuais. Compra por pagar. Débito que não me afligia naquele instante. Senhorio não paga renda, devia pensar eu, Maria do Céu...
Subi as escadas lentamente. Pela passadeira, como se receasse fazer barulho antes do tempo. O meu pensamento fervilhava, construindo antecipadamente o diálogo a ter, dentro em pouco, com Maria do Céu. Parei mesmo, alguns minutos, diante da janela do último patamar das escadas, olhando distraidamente as copas das árvores dos Campos Elísios, recortadas na penumbra do crepúsculo. Algumas aves apressavam-se a recolher ao seu galho preferido. Perdido nos meus pensamentos desenfreados, estremeci, quando me pareceu ver uma delas sair das árvores, disparada, em voo tenso, e perder-se ao longe, seguramente muito para lá do Sena. A ecoar no meu espírito, ficou uma ordem, tola, irracional, surdamente gritada àquela ave, muito para além dela ter desaparecido. Era como se eu imaginasse ter o poder de fazer retornar a ave ao seu ninho, pela simples acção da minha vontade.
(continua)
Magalhães Pinto
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