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6.6.07

A DUVIDA - 88º. fascículo

(continuação)

XVI

Bati a porta com força demais para o meu desejo de naturalidade. Ouvia-se o chuveiro a correr na casa de banho. Associei com uma lavagem ao cérebro. Um sobressalto. Falha no meu plano. Em cima da pequena mesa do canto, o meu bloco de notas, deixado quando ali viera, há pouco, por Maria do Céu, denunciava a minha presença antecipada. Parecia gritar alto. Se ela o tivesse visto, lá se ia a minha arquitectura demolidora por água abaixo. Guardei a esperança de ter sido mais forte o alvoroço do que o espírito de observação. Deixei ficar o bloco onde estava. Dava menos nas vistas. Fui à casa de banho. A cortina da banheira estava corrida. Transparente, deixava adivinhar as formas nuas, bem torneadas, de Maria do Céu. Abri a cortina, lentamente, numa reminiscência hitchcoquiana. Teve um ligeiro sobressalto e olhou-me bem nos olhos, quase interrogativamente. Por repentino e estranho pudor, voltou-me as costas. Saudei-a no tom mais natural possivel, um pouco trémulo porém. Como se lhe lavasse as costas, fiz-lhe uma longa carícia, da nuca às nádegas. Não me apressei. Fechei a cortina. Regressei ao quarto e sentei-me num dos sofás, acendendo um cigarro.

Ouvi a água parar de correr. Senti o sangue correr mais depressa, enquanto fazia esforços para parecer distraído. Daí a pouco, Maria do Céu saiu do banho. Vinha embrulhada na toalha. Com gestos lentos, secou-se cuidadosamente, perfumou-se. Apreciei os seus movimentos, cheios de graça, de deusa nua a preparar-se para uma orgia no Olimpo. Curvou-se para vestir o slipe, seios pendentes, como quando fazia amor comigo. O desejo, subitamente desperto, não foi senão um relâmpago. Então que fizeste hoje durante o dia? Nada?! Pode lá ser! Não saiste mesmo? Não me digas que estiveste a dormir todo o dia? Almoçaste no hotel ou lá fora? Claro que saiste! Ias lá ficar este tempo todo aqui fechada! Não rias! Estou a falar a sério! Foste a algum sítio? Não?! Quer dizer, acordaste agora mesmo e estás a tomar o banho como se fosse de manhã?

(conrinua)
Magalhães Pinto

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