(continuação)
Já não sei se ouvia as tuas respostas às minhas questões, Maria do Céu ou se aquelas de que me recordo são produto da minha imaginação. A minha raiva subia de intensidade ao ritmo das minhas próprias perguntas. Era como se já conhecesse as respostas de cor e salteado. Era como se as perguntas fossem elas mesmo uma resposta. E, contudo, eu nem lhes dava conta. A ira é um sentimento desgraçado, Maria do Céu. A ira é o adormecimento de todos os sentidos, para ficar só esse sentir desgraçado. Cego. Surdo. A boca seca como um deserto. Os dedos a formigar. Cheirando a pólvora à espera duma faísca. Foi sempre uma característica minha que apanhou os outros desprevenidos. Se encurralado nos meus próprios sentimentos, reagir como uma fera em vias de ser caçada. Devo ter-te assustado muito Maria do Céu, naquele fim de tarde em Paris. Não me recordo já do meu tom de voz. Aliás, nunca me lembro do modo como falo se estou irado, quando a tempestade amaina. Mas penso que devia ser suave, como as garras duma onça a saborear a pele da presa antes de a devorar. Por isso, certamente mais ameaçador. Porque sei que não disfarço um tom sibilino, mas lento, arrastado, de faca a rasgar o tecido da consciência. Acho que te devo um pedido de desculpas por aquele fim de tarde, Maria do Céu. Embora não saiba porquê. Afinal, os acontecimentos vieram a mostrar a razão das minhas dúvidas, da minha ira. Mas teriam esses acontecimentos sido os mesmos se, em lugar daquela obsessão de conhecer todos os teus passos, eu tivesse tentado compreender melhor o teu lado da questão? Acho que não. Provavelmente, teriam sido profundamente diferentes. Com aquela cena, com aquele susto, eu estava a destruir a tua confiança em mim. A enterrar a possibilidade de me confiares os teus problemas. Estava a barrar a corrente dos acontecimentos que nos envolviam já, esquecido do fluir constante e encadeado duma vida. Ao qual só podemos opôr margens. Diques, nunca.
(continua)
Magalhães Pinto
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