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10.6.07

A DUVIDA - 90º. fascículo

(continuação)

Durante alguns minutos, eu parecia um gato a brincar com um rato. Maria do Céu negava ter saído, mas com um ar aparentemente brejeiro, como quem quer guardar espaço para recuar, se for necessário. Olhava-a fixamente, ferozmente. Os seus olhos pareciam pés de bailarinos, sem se deterem um momento só em coisa nenhuma, saltando de sítio em sítio vertiginosamente. Pareceu concentrar-se no aperto do soutien. Insisti, cada vez mais firme. Abandonei a presunção e assumi a certeza. Onde foste, que só chegaste há pouco? Não tenho a ver com isso? Essa é boa! A minha irritação subia de tom. Tenho tudo a ver, Maria do Céu! Não te tirei da lama, para andares agora por aí, sem mim, quando te apetece e sem me dizeres por onde! Começou a chorar, silenciosamente, mas não me comoveu. Quero saber onde andaste e o que fizeste! Ou já esqueceste ser essa a regra? Estiveste com alguém? Um perfeito absurdo, esta pergunta. Com quem havia Maria do Céu estar, ela, a provinciana de Rala, numa das maiores metrópoles do mundo? Mas a minha razão já não procurava a razão. Era uma corrente impetuosa e selvagem, a jorrar catadupas de absurdos, com a intenção de ferir! Não julgues que é como no Porto, quando foste para a cama com o Vítor, sem me dizeres! Vais-me dizer o que fizeste esta tarde! Ou foi todo o dia? Tiveste tempo de ir ao Bosque de Bolonha, fazer uns cabritos! Perdida a noção dos limites, eu já não era senhor do pensamento. A ira era imperatriz suprema do meu espírito, das minhas cordas vocais, da minha boca. Maria do Céu não respondia. Sentara-se, primeiro, na cama, ombros encolhidos, olhos fixos no tapete, bailarinos inábeis na hora da pateada. Para, de seguida, afogar a cabeça na almofada, mãos a apertar os ouvidos, numa vã tentativa de escapar aos meus insultos. O seu corpo em convulsão parecia uma serpente ferida, no estertor duma vida a esvair-se.

(continua)
Magalhães Pinto

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