(continuação)
Quando te vi assim, Maria do Céu, chorosa e alquebrada, tive um rebate de consciência. Senti amolecer a minha raiva. Estava, pensei então, a ser profundamente injusto contigo. Nada mais natural do que a tua curiosidade levar-te a explorar Paris sozinha. Não te tinha avisado eu do meu regresso cerca das seis horas? Porque haverias de voltar mais cedo ao hotel? Como de costume, a minha raiva escoava-se, progressivamente, nos teus soluços. O desatino, que tu não viste e me levava a deambular pelo quarto, sem objectivo, era já o desejo de pôr ponto final na querela. Queria parar o teu choro e não sabia como. Sabes, o homem irado é assim. Fere, mata mesmo, as coisas de que mais gosta. Julgando-se rei e senhor de quanto existe em seu redor, solta a força impetuosa da sua intolerância, faz dela um cavalo selvagem, desenfreado, a derrubar tudo na passagem. E, depois, fica sem saber como dominá-lo de novo, olhando os destroços caídos pelo caminho, com olhar triste, como se quisesse restituir-lhes a existência. Eu também olhava o teu corpo caído na cama, arrependido já do acontecido por inteira vontade minha. Não o sabia ainda. Mas, naquele dia, alguma coisa morrera entre nós. E como podia eu adivinhar, naquele instante, naquelas circunstâncias, a tua necessidade do meu auxílio, muito mais do que quando te havia encontrado no Borboleta Negra? Esse desconhecimento não me serve de desculpa, não! O meu dever era confiar em ti! Mas que queres? A confiança é um bicho estranho! Surge, aproxima-se subrepticiamente, instala-se. E fica por ali, tranquilo, sem que demos, sequer, conta dele. Mas é um animal tremendamente assustadiço. Ao mais pequeno gesto agressivo, foge a sete pés, perde-se na selva da suspeita. Normalmente, para não regressar mais. E na alma fica o espaço por ele ocupado antes. Enorme. Avassalador. Aterrador. Dor. A dúvida. Uma verruma gigantesca a aprofundá-lo cada vez mais. Um buraco no qual se vai sossobrar irremediavelmente.
(continua)
Magalhães Pinto
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