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13.6.07

A DUVIDA - 93º. fascículo

(continuação)

Ficamos largo tempo, exaustos, sem uma palavra, deitados de costas na cama, a olhar o tecto, como dois espectadores face a uma tela de cinema onde nenhum filme era projectado. Aos poucos, a consciência retornou. Já era noite cerrada. A primeira coisa de que me apercebi foi o reflexo, no tecto do quarto, dum letreiro luminoso qualquer da rua. O folhado dos cortinados recortava-o numa monstruosa cara de palhaço. Julguei mesmo descortinar um esgar sardónico naquele jogo de luz e sombras. A ombreira da porta parecia, vista dali, da cama, muito maior. O espelho, colocado por cima da cómoda, reflectia a mesa do canto, com o meu caderno de notas em grande plano. Senti um súbito desejo de ter sido emigrante. Há muito tempo. Antes de ter atingido a puberdade. Se possível, sem encontrar nenhuma madame Francine no meu caminho. Uma extrema fadiga sustinha-me as pálpebras abertas, olhos a medirem cada recanto do quarto na obscuridade. Donde teria vindo aquela mosca, ali, do lado direito? Mágica. Daí a momentos desapareceu. Não mais a vi, por mais que arregalasse os olhos. Nem mesmo quando o alvorecer apagou o reflexo do letreiro no tecto do quarto.

(continua)
Magalhães Pinto

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