
Há um vendaval de artigos de opinião a censurar algo que, a meu ver, merece ser censurado. É que, no mesmo dia em que foi cortada a bonificação ao crédito jovem para aquisição de casa própria, entrou em vigor uma bonificação para o crédito a usar pelos clubes de futebol na construção de estádios para o Euro/2004.
Tem razão de ser a censura. É profundamente imoral aquilo a que assistimos. E para que não ficassem dúvidas nenhumas sobre isso, até se deu a profunda ironia de os dois factos acontecerem simultâneamente. Aos jovens poucas hipóteses restam para organizarem a sua vida, para além de comprar casa. Nem sequer é relevante que muito desse crédito tenha sido utilizado por adultos que adquiriram casa em nome de jovens. Esses deveriam ser apanhados e devolver tudo o que, ilegitimamente, levaram dos nossos impostos. Mas ficam todos os outros, os utilizadores legítimos, para dizer do grande alcance social da medida a que o Governo pôs fim. Pelos vistos, para apoiar (ainda mais) o futebol.
Vem o Governo dizer que, em compensação, vai aumentar o subsídio para renda de casas. O que me deixa sem perceber. Se o Estado vai aumentar o subsídio para as rendas, porque é que terminou com o subsídio para a compra de casa? Há mistérios que são quase insondáveis.
Mas o que eu quero realmente colocar em destaque nesta croniqueta é outra coisa. O barulho é, agora, ensurdecedor. O que cheira a hipocrisia. O que é outro mistério. As bonificações para os clubes de futebol foram concedidas pelo Governo socialista que caiu o ano passado. E foram assumidas contratualmente. Estão, de pedra e cal, incluídas nos contratos celebrados pelos clubes de futebol com o Estado. Não há outro remédio, para o Estado, senão cumprir. Todavia, sabemos que insultam a moral e a ética. Pois é. Só que o barulho contra isto deveria ter sido feito quando a megalomania de meia dúzia encontrou cobertura nos governantes de então. Quando foi aprovado o apoio financeiro do Estado à realização do Euro/2004, eu fui das raríssimas vozes a levantarem-se contra o facto. Nessa altura, a maioria dos fazedores de opinião embandeirou em arco ou calou-se. Agora, é caso para dizer que tarde piaram. Melhor fora que ficassem calados.
Por idêntica razão, são totalmente descabidas as intervenções de Narciso Miranda quando pede para o Leça um tratamento igual ao do Benfica. É que não é a pedir mais apoio para o futebol que se moraliza o regime. É vociferando contra o escândalo dos meios que os Governos – incluindo Governos a que ele deu o seu incondicional apoio – e, também, autarquias continuam a canalizar para o futebol. Com manifesto prejuízo de jovens e outras classes sociais, Com vergonhosas situações como aquela que aqui comento.
Crónica TARDE PIARAM - Magalhães Pinto - "Matosinhos Hoje" - 17/8/2002
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