
Nos primeiros dias após a sua vitória eleitoral de 2005, António Guterres pronunciou uma frase que haveria de ficar célebre: “NO JOBS FOR THE BOYS”. Queria ele dizer, na sua, que os militantes e apoiantes do Partido Socialista não poderiam esperar um assalto aos lugares da função pública preenchidos por nomeação governamental. Ver-se-ia depois, com o andar dos tempos, que a frase nem sempre teve cumprimento. O Governo Socialista acabou por nomear praticamente tantos funcionários públicos como os demais antecedentes. Mas a frase teve o condão de conter os ímpetos das hostes socialistas. E as substituições de nomeados por outros deram-se com um mínimo de dignidade.
O mesmo não aconteceu com José Sócrates. Bem ao contrário, passamos a assistir a um verdadeiro assalto socialista, com factores de arrepiar à mistura. A censura, a prepotência, a perseguição encarniçada, o reaparecimento dos “bufos” de tão triste memória têm dado lugar a acontecimentos verdadeiramente lamentáveis numa sociedade civilizada e democrática, se é que o somos. Esta situação viria a ter o seu ponto alto a semana passada, numa discussão na Assembleia da República, quando o deputado socialista Vítor Gonçalves, nitidamente de cabeça perdida, afirmou peremptoriamente: “Ganhámos as eleições para nomear pessoas”, conforme vem citado na última edição do “Expresso”. Isto já não é só o despautério, isto atinge foros de pouca vergonha. A merecer, inclusivamente, a censura de pessoas tão insuspeitas como o deputado Manuel Alegre.
Todavia, não considero verdadeiro responsável o deputado autor do dislate. Para encontrarmos responsáveis temos que subir mais alto e procurar entre aqueles ministros que têm assumido uma atitude autoritária, susceptível de dar ao aparelho do Partido a noção de que “isto” é tudo nosso. Nosso, deles, socialistas. E “isto” é o país, transformado numa coutada pessoal. Não admira pois que, sendo a coutada pessoal, haja hoje uma verdadeira caçada a quem da coutada é apenos servo ou intruso. É nisso que está fundamentalmente ocupado, hoje, o aparelho socialista.
É urgente inverter esta tendência. Não apenas porque ela é indigna de todos nós, socialistas ou não. Mas porque, a prazo, uma atitude assim contribui decisivamente para quebrar a união mínima necessária a que enfrentemos, com coragem, os desafios que a situação do país nos coloca nesta hora difícil.
Uma última palavra para estranhar o silêncio que, sobre estes factos vem guardando o Senhor Presidente da República. Ele é o garante último dos direitos dos cidadãos. E, quando estão em causa princípios tão fundamentais como a liberdade de expressão ou de opinião, ele não pode ficar calado.
Crónica OS JOBS E OS BOYS - Magalhães Pinto - "MATOSINHOS HOJE" - 9/7/2007
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