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5.7.07

A DUVIDA - 115º. fascículo

(continuação)

Como quase sempre, em situações do género, Maria do Céu ficou calada. Como se eu estivesse a falar chinês. Não é verdade que conheces bem a Rua Gonçalo Cristóvão? Ainda não há muito tempo andaste por lá. Não, não te vi... vieram-me dizer. Anda lá, não faças caixinha. Que foste fazer por lá? Só passear? Não acredito! Há ruas muito mais agradáveis, no Porto, para isso.

Eu podia ter ido direito ao assunto, Maria do Céu. Devo ter começado assim, com rodeios, na secreta esperança de que te abrisses e tudo me contasses, sem ser necessário eu forçar-te, sem haver de conduzir-te pela mão, até à verdade total. Mas depois, quando percebi as tuas tentativas de fuga àquilo que eu já conhecia, creio ter sido a raiva a determinar-me. Queria levar-te a assumir com dor e por espasmos sucessivos, como quem tem um filho, a verdade escondida nas tuas negaças. A minha raiva, face às tuas evasivas, era a placenta rebentada dum parto desejado por mim sem anestesia. Queria a verdade, nem que para isso devesse submeter-te a uma cesariana, devesse esventrar-te a alma até remexer, impiedosa e dolorosamente, no útero da tua dissimulação. Naquele dia da confissão, Maria do Céu, não gritei, como era meu costume, mas penso ter sido muito cruel. Atormenta-me, hoje, essa crueldade.

Comecei a apertar o cerco a Maria do Céu. Ela estava irremediávelmente embrulhada na minha táctica de inquisição. Enquanto ia lançando novas achas à fogueira na qual reduziria a cinzas a sua obstinação, tive uma sensação de déjà vu invertido. Senti-me na pele do meu pai, numa atitude semelhante, quando pretendeu levar-me a retirar uma mentira qualquer de juventude. Sabia tudo, mas forçou-me a ser eu a admiti-lo, passo a passo, sem contemplações, até à humilhação total. Era relativamente fácil. Bastava cortar à nascença cada veleidade de fuga com uma fracção apenas da verdade total. Em círculo. Até que em redor não existisse senão um muro contínuo, poço sem escapatórias, onde a vontade desmoralizada acabava por se afogar.

(continua)
Magalhães Pinto

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