Pesquisar neste blogue

6.7.07

A DUVIDA - 116º. fascículo

(continuação)

Conheces um tal doutor Mário Salcedas, insisti, face às evasivas de Maria do Céu. Sim, com consultório quase em frente ao jornal. Não, ginecologista. Sei lá se é novo ou é velho, só lhe conheço o nome. Nunca falaste com ele? Não, não é nenhum cliente teu antigo...

Percebi o início da tua cedência à verdade, Maria do Céu. A tua expressão lembrava um animal acossado, encafuado num beco sem saída. Um misto de medo e de coragem, de desespero e de vontade de lutar, de imobilidade aterrada e de músculos retesos preparados para reagir. Recordo - como estou pesaroso por isso!... - que, pelo meu lado, me sentia um predador feroz, de mandíbulas bem ferradas no lombo da vítima. De algum modo, assim era. O meu enorme desejo de pôr tudo a claro travava uma luta sem quartel com a tua vontade de esconder. Partindo dum pormenor insignificante, eu arranjara modo de te colocar, indefesa, na armadilha fatal que te ia derrotar. O instinto de macho ferido no seu orgulho enroscava-se poderosamente, pouco a pouco, nos frágeis ramos duma defesa quase infantil, porque calada ou evasiva. Teria sido extremamente simples, Maria do Céu, virares a situação a teu favor. Bastaria teres-me perguntado, pois bem viram-me, mas como sabes que fui a esse médico... Não o fizeste. E eu não entendi na altura. Hoje creio saber porquê. O teu drama ultrapassava a trivialidade dessas ninharias. Como deves ter sofrido naquele momento, Maria do Céu! Sem eu sequer sonhar ainda porquê!

Via o sofrimento escorrer, espesso, nas lágrimas que começaram a deslizar na face de Maria do Céu. Em breve, uma torrente imparável de soluços audíveis. Demasiado verdadeiros, para que eu pudesse associá-los à tradicional defesa feminina como, no espaço breve entre dois deles, cheguei a admitir. Pacientemente, esperei que serenasse um pouco. Também a minha dureza começou a ceder. Sabes, o nosso relacionamento deve assentar na confiança recíproca. Numa exigência de verdade total. Foste lá, não foste, consultá-lo? Presa exangue, disponível para saciar a minha fome de verdade, pronta a servir de repasto à minha dúvida esfomeada, a tentativa de ajuda sabia já a condimento. Não podes esconder-me o que foste fazer àquele médico. Era já um apelo a que ela se abrisse comigo completamente, de modo a matar o meu medo do desconhecido, minha companhia desde sei lá há quanto tempo. Desde o episódio do cinema, logo no início da nossa vida a dois, julgo.

(continua)
Magalhães Pinto

Sem comentários: