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9.7.07

A DUVIDA - 117º. fascículo

(continuação)

Quando levantaste o olhar para mim, Maria do Céu, ainda raso de água, já não eras uma presa a lutar pela vida. Parecias mais um pardalito penugento, caído do ninho, a implorar a um viandeiro a piedade de um afago. Tive pena, muita pena. Sabes o que me apeteceu nessa altura, Maria do Céu? Dae a conversa por terminada, tomar-te nos meus braços, beijar-te a fronte e apertar-te muito de encontro ao peito, como se faz ao filho a quem um pesadelo acordou. Mas uma força maior impeliu-me a prosseguir. E a verdade, crua e sangrenta como um pedaço de carne de uma rês recém-abatida, começou a surgir da tua fala grumosa, entrecortada aqui e além por um soluço ainda.


Maria do Céu fora àquele médico aconselhada pela Zélia. Tudo começara quando tinha falhado o primeiro período menstrual, a seguir ao regresso de Pa´ris. Durante duas semanas ainda esperara, ansiosa. Se fosse gravidez, era a primeira. A violação na aldeia teria acontecido em momento favorável da ovulação e não tivera consequências nesse domínio; e, no período de prostituição seguinte, usara sempre os cuidados necessários para a evitar. Ao entrar na terceira semana de falta, decidira tirar-se de dúvidas. Nunca tendo tido necessidade, não conhecia nenhum médico. Lembrara-se de recorrer a alguma das amigas antigas. Sueli já não estava no Porto- Zélia. Fora bater-lhe à porta. Uma tarde, fora por ela e tinha-a encontrado em casa. Dera-lhe conta do seu problema. Zélia aconselhara aquele, seu conhecido. Fizera mesmo a marcação da consulta, recomendando-a. No dia aprazado fora lá. Uma rápida análise. Confirmado. Estava grávida.

(continua)
Magalhães Pinto

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