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9.7.07

A DUVIDA - 118º fascículo

(continuação)

O silêncio era meu, agora, Maria do Céu. Procurava prescrutar o teu pensamento, usando o meu como se ele pudesse ser uma verruma capaz de penetrar no âmago da tua alma. Sentia-me cair do espaço imaterial de tudo quanto a minha imaginação era capaz de produzir, para me esboroar nas duras rochas da realidade. Grávida? Não podia ser! Era absolutamente impossível. Era engano, de certeza. Não teria sofrido mais, Maria do Céu, se uma filha, que nunca tive, tivesse chegado junto de mim com idêntica notícia, desconhecendo o pai.


Maria do Céu prosseguia. Quando o médico, após os testes e um exame rápido, lhe confirmara não haver dúvidas, chorara copiosamente, mesmo na frente dele. Era uma gravidez não desejada. Nem sequer era indiferente. Este filho não pode nascer! Será que era possível interromper a gravidez? O médico disponibilizara-se para isso. Custava cinco contos e faria o aborto ali mesmo, no consultório. Marcara logo a data. Seria daí a dez dias. Não pode ser! Estás a mentir-me, Maria do Céu! Dificilmente evitava gritar-lhe. Tu não estás grávida. Já conhecias o médico e foste encontrar-te com ele, exclamei, desaustinado. Não!... Não!... Tretas!... Estás a mentir-me outra vez! Ora diz-me lá, porque é que estando grávida, não queres o filho?

(continua)
Magalhães Pinto

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