
As quatro notícias foram publicadas no mesmo dia. Pareciam nada ter a ver umas com as outras. Mas era só parecença. Porque, no seu conjunto, mostravam a que ponto a desfaçatez política se instalou no nosso país.
A primeira notícia tinha a ver com o Orçamento Geral do Estado. A respectiva proposta tinha sido apresentada. E, para não variar, o habitual. Mais impostos, menos benefícios. Entre os "mais impostos" ressaltou o agravamento dos pagamentos antecipados por conta. Um pagamento injusto. Porque não é por conta de coisa nenhuma. É um imposto que se está nas tintas para se as empresas ganham ou não. Paga-se apenas porque se existe. Tanto faz que a conjuntura seja boa ou má. Haja lucros que não haja. Veja-se este absurdo: o Governo diz que a situação é má; se a situação é má, os portugueses consomem menos; se os portugueses consomem menos, os lucros nas empresas são menores; se são menores deviam pagar-se menos impostos. E o resultado é que se pagam mais!
A segunda notícia falava de que a Câmara Municipal do Porto distribuiu, pelo clubes de futebol da cidade do Porto, nos últimos dez anos, mais de dez milhões de euros. Isto é, mais de dois milhões de contos. Isto sem contar com terrenos, capacidade construtiva em urbanizações, bombas de gasolina, etc.. Um despautério completo. Para isso têm vindo a aumentar os nossos impostos. Para isso, para dez estádios novos, para um Campeonato Europeu de Futebol que nos vai ficar muito caro.
A terceira notícia falava da concessão, pela Câmara de Gondomar, ao Boavista, de cinquenta mil euros. Mais ou menos dez mil contos. Não sei se está a ver. O Boavista não é de Gondomar. O que faz do facto uma dádiva de Loureiro pai a Loureiro filho. Outro despautério! Já chegamos à Madeira ou quê?
A quarta notícia falava de uma reclamação pública do Senhor Presidente da Associação Nacional de Municípios, o Presidente Social Democrata da Câmara Municipal de Viseu. Segundo ele, os autarcas portugueses não aceitavam a presumível redução de fundos do Estado colocados à sua disposição. Por não ser sua – deles, autarcas – a culpa da situação a que se chegou. O que é muito discutível. Mas não é isso que me importa por agora.
Colocadas todas as notícias em paralelo, cheguei às seguintes conclusões que aqui lhe trago, meu Caro Leitor, para ver se está de acordo com elas.
- O governo quer o dele e está-se nas tintas para se podemos pagar ou não;
- Aumenta-nos os impostos para os dar às Câmaras Municipais, as quais, por sua vez, os entregarão ao futebol.
- Os autarcas já nem se incomodam a disfarçar o que fazem. E até fazem as coisas em família quando do futebol se trata.
- Nós somos todos uns palermas, que nem vemos que quando um autarca está a dar dinheiro ao clube de futebol da nossa preferência o tirou do nosso bolso.
Se calhar valia mais passarmos a pagar impostos ao nosso clube de futebol e deixarmos de os pagar ao Estado.
Excerto da crónica QUE PAÍS É ESTE - Magalhães Pinto - "MATOSINHOS HOJE" - 6/10/2002
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