A DÚVIDA
A. Magalhães Pinto
Hoje, quero falar contigo, Maria do Céu. Quero percorrer contigo, como se fosse a penitência duma via sacra, necessária à redenção das nossas consciências, a sucessão de acontecimentos que nos destruiram. Acontecimentos interligados, embora parecessem independentes da nossa vontade e fruto do acaso. Às vezes, contraditórios. Só na aparência, porém. No seu todo, são uma rede de malhas irregulares, na qual nos ensarilhámos irremediavelmente, vítimas e algozes, ao mesmo tempo, dum emaranhado de sentimentos, só eventualmente compreendido, agora, quando a poeira levantada pela ventania das nossas relações tempestuosas vai assentando sobre as cicatrizes escalavradas das nossas feridas. Ou nos ensarilhámos ou fomos ensarilhados, Maria do Céu, por essa coisa a que os homens chamam destino. Que eles pensam ser pré-determinada. Poderosa. Livro pré-escrito a tinta da china. Como se o nosso querer não fosse capaz de alterar a sequência dos acontecimentos da nossa vida...
Não sei bem porque me apetece falar contigo e de ti, de mim, de nós. Tenho pensado se vale a pena. Se ainda vai a tempo. Recordar é bom se é uma festa com foguetes de estourar. Nunca, se os foguetes são de lágrimas. E nós não temos senão estas para deitar, Maria do Céu. Recordar é uma rosa se traz do passado o perfume para enfeitar o futuro. É espinho se mostra como o futuro foi destruído, tornado inútil, apodrecido. Olho para as mãos da minha alma e nelas não vejo senão as chagas que a nossa história deixou. É como se as carícias entregues as queimassem ainda. Os lábios da minha alma a custo balbuciam esta lenga-lenga, gretados ainda pela lâmina da dúvida que dilacerava os meus beijos. Os olhos da minha alma vêem com dificuldade este alinhavo, cansados de ver para além da aparência.
(continua)
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