(continuação)
Em boa verdade, tudo passado, quando as reminiscências da nossa estrada comum, tão breve e tão longa, tão cheia de acontecimentos e tão oca de sentido, tão rica de conteúdo e tão pobre de finalidade, não passam de sulcos meio apagados por um tropel de desencontros; agora, com a sujidade, que foi emporcalhando as límpidas intenções da partida, lavada pela água e sal dos choros tantas vezes vertidos, não é azedo o sabor da recordação. Dôr, sim, ainda muita! Azedume, não! Dôr nascida do nosso insensato e contraditório comportamento, de ruptura, ponto final duma oração com dois sujeitos e sem verbo; dôr alimentada da percepção de como poderia ter sido diferente, se nós mesmos não fôssemos como somos; dôr moribunda dum fogo que nos queimou e hoje só bruxuleia, à míngua de combustível. Mas azedume, não. Não pode ficar azedume dos actos nos quais somos simples instrumentos. Canhestros instrumentos que tenhamos sido. Enxadas mal afeiçoadas a cavarem terra de sequeiro. Umas vezes, ruidosamente, torrões esboroados em explosões audíveis. Outras vezes, silenciosamente, como se a terra nos deixasse penetrar nas suas entranhas com a cumplicidade duma amante.
(continua)
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