(continuação)
Dois seres feitos um para o outro, hélice e leme dum mesmo navio, par de remos de minúsculo caíque, podem não ser complementares, podem não levar a bom porto o barco de que são trastes. Para tanto, basta não girar a hélice sempre no mesmo sentido ou perder o leme o norte a cada revolução. Basta moverem-se os remos um atrás do outro, numa procura recíproca desencontrada. Nada mais resta, então, senão girar em círculos, cada vez mais disformes, até ao naufrágio nas vagas dum mar cruzado.
Brigo comigo mesmo quando a recordo. Isto é, sempre. Entro no conflito por não conseguir traçar o seu retrato definitivo, como se as suas características compusessem uma imagem difusa, perenemente fugidia. Ora angélica, com o olhar inundado da ternura dos fins de semana invernosos, quando nos escapávamos para a casa do Mindelo, refúgio dos nossos jogos e altar dos nossos reencontros. Ora mártir silenciosa, fazendo dos seus silêncios o escudo infernal que me devolvia os insultos, as acusações, os argumentos, um grito atafulhando a minha consciência até à absorção completa da razão. Ora diabólica, aparentes mentiras derramadas em catadupa, queda de água poluída a morrer na suja espuma da minha dúvida.
(continua)
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