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13.3.07

A DUVIDA - 4º. fasciculo

(continuação)

É com pudor que chamo aos teus silêncios, mais do que às tuas mentiras, diabólicos, Maria do Céu. Infernais, mais pelos efeitos do que pela intenção. Bem cá no fundo, não acredito que cada um dos teus silêncios, cada uma das tuas mentiras, tenha tido a intenção duma faca. Penso que pretendias fossem antes um ancinho, arrastando para longe de nós o lixo que nos poluía. Bem cá no fundo, não creio que tenhas alguma vez agido com intenção de me ferir. Mas foi isto que conseguiste, ao longo do sucedido. Porquê, Maria do Céu? Que réguas te traçaram o carácter? Que compassos desenharam as curvas sinuosas por onde conduziste o teu comportamento e o nosso envolvimento? Que geómetra foi capaz de imaginar as faces de polígono tão irregular? Tremo ao pensar poder ter sido eu, mais do que a mão, a pena que te desenhou.

Angélica ou demoníaca, lhe vislumbro, às vezes, na ideia complexa que dela retenho, fogachos de medo, temor de solidão. Uma solidão com que a ameaçava, quando tentava travar a descida na minha escala de valores, paralítica, estiolada, durante tantos anos em mim inculcada pelo ambiente machista do meu crescimento. Quando me comportava como se só eu, o homem, o macho, o guia da manada, tivesse direitos, tivesse poderes. Como se Maria do Céu fosse propriedade minha... Quase ia a dizer, como se Maria do Céu fosse minha filha, fosse gerada por cromossomas que nunca existiram. Naquelas ocasiões de desvario, terríveis no tom cortante emprestado à minha voz pela intolerância e pela impaciência, ela sentia-me capaz de cumprir a ameaça. E o espectro do isolamento - como ela o conhecia bem! - levava-a a buscar um abrigo acolhedor no silêncio obstinado.

(continua)

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