(continuação)
Mal chegamos a casa, procurei pô-la à vontade. Preparei-lhe uma bebida. Outra para mim. Puz a rodar, em surdina, o adaggio do Concerto de Aranjuez. As ondas melodiosas do inesquecível trecho de Rodrigo, meu preferido, encheram o apartamento, murmúrio dos ventos da Meseta num abraço de amor em árvores milenares. Esperei alguma reacção de estranheza ou curiosidade. Não surgiu, embora o trecho estivesse nos antípodas dos gritos musicais frequentes no "Borboleta". Tirei o casaco e a gravata, peguei no meu copo e sentei-me no sofá. Acendi dois cigarros simultâneamente, oferecendo-lhe um deles. Perguntei-lhe se gostava do meu apartamento meio desarrumado de solteirão. Deixou correr o olhar em redor, lentamente, como se quisesse guardar em fotografia mental tudo o que via. Da kitchenette, onde a louça de vários pequenos almoços aguardava ainda a enxaguadela purificadora, até ao bar, repleto de garrafas de todos os feitios. Da estante, onde pilhas de livros se haviam engalfinhado uns nos outros, até à secretária, com a máquina de escrever a emergir, sôfrega de uma pinga de ar fresco, Dos papéis amontoados na mesa redonda e nua, ancorada em quatro cadeiras desarrumadas, até à janela, sem cortinas, para além da qual se divisava, lá ao fundo, uma nesga de rio a lavar, tranquilamente, os pés da cidade. Encolheu os ombros. Se algo destoava de tantos outros seus conhecidos, era a barafunda. Aliás, disse, preferia estar na discoteca, horas sem fim, mergulhada naquela atmosfera atordoante, do que na solidão murmurada dum apartamento. Sim! Porque, mesmo a dois, não deixava de ser solidão.
(continua)
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