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12.7.07

A DUVIDA - 121º. fascículo

(continuação)

No dia seguinte, eu saira cedo, deixando-a ainda a dormitar e recomendando-lhe para não se afastar muito do hotel, se dali saisse. Eram perto das onze horas, quando ligaram da recepção para o quarto, dizendo ter alguém indagando por si. Inicialmente não entendera quem lhe falara, em francês parecera-lhe. Valera a existência de um empregado espanhol, pedindo-lhe para descer à recepção, estava um tal senhor Oliveira à espera dela. Julgara, inicialmente, tratar-se de um dos portugueses que devia encontrar-se comigo. Talvez um desencontro. Já tinha tomado banho. Vestira-se, dera uma esocvadela ao cabelo e descera. Quando chegara ao lobby, estava lá o Miguel, outra vez. A sua primeira reacção fora voltar-lhe as costas e fugir. Mas ele agarrara-a por um braço, discretamente. E começara a falar-lhe com voz suave. Tranquilizou-se e dispôs-se a confrontá-lo- Estava só e não queria armar algum escândalo que, depois, viesse a ser do meu conhecimento. Deixara-se encaminhar ou encaminhara-se para a rua. Não queria barulho na recepção.

Aos sucessivos pedidos de ser deixada em paz, o Miguel, hoje muito diferente do provinciano de Rala, bem falante, elegante no seu fato de alpaca, respondia-lhe com evocações da juventude. Das vezes em que ela se ajoelhava em frente do Senhor dos Passos e ele não passava da pia baptismal, espiando a sua devoção e benzendo-se com água benta sempre que a via fazer o sinal da cruz. Das vezes que a seguira de casa para a cortinha do Ti'Joaquim e dali para casa, quase sempre com paragem na igreja. Das vezes que preparara minuciosamente pedir-lhe namoro e de como ela tinha conseguido escapar aos encontros, aparentemente fortuitos, por ele planeados. E de como, quando ela lhe recusou um beijo na desfolhada do Ti'Joaquim, decidira que ela haveria de ser sua.

(continua)
Magalhães Pinto

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